Hino à Matéria

                            E como avançassem
juntos,eis                                                                       que os separam um
carro e cavalos
                        de fogo;e;apanhado por um
turbilhão,                                                                  Elias viu-se de súbito
arrebatado
                        para os Céus.
                                              Livro dos Reis




A força espiritual da matéria

O Homem,seguido pelo seu companheiro,caminhava no deserto, quando a         
Coisa se abateu sobre ele.
De longe,ela aparecera-lhe,muito pequena,deslizando pela areia,não maior do
que a péla de uma criança-uma sombra doirada e fugudia,parecida com um voo
hesitante de codornizes,ao romper do dia,por cima do mar azul,ou com uma
nuvem de mosquitos dançando ao sol da tarde,ou com um torvelinho de poeira
que corresse ao meio-dia planície fora.
A Coisa parecia não estar interessada nos dois viajantes.Rolava caprichosa na
sua solidão.Mas de súbito,definindo o seu percurso,correu sobre eles,como uma
flecha.
...E então,o Homem viu que o pequeno vapor doirado era apenas o centro de
uma Realidade infinitamente maior,que avançava incircunscrita,sem formas e sem
limites.Tão longe quanto pôde ver,a Coisa,à medida que se aproximava,
desenvolvia-se com uma  rapidez prodigiosa,invadindo todo o espaço.Enquanto
os pés roçavam a erva espinhosa da torrente,a sua fronte subia no céu como uma
bruma cor de ouro,por trás da qual o Sol ardia.E a toda a volta,o éter,tornado
vivo,vibrava tangivelmente,sob a substância grosseira das rochas e das
plantas-como no Verão uma paisagem treme por detrás de um Sol demasiado
incendiado.
O que assim chegava era o Coração móvel de uma imensa subtileza.
O Homem caiu de rosto por terra,tapou o rosto com as mãos e esperou.
Fez-se um grande silêncio à sua volta.
E depois,bruscamente,um sopro ardente passou-lhe pela fronte,forçou a barreira
das suas pálpebras fechadas,e penetrou-o até à alma.
O Homem teve a impressão de que deixava de ser unicamente ele próprio.Uma
embriaguez irresistível apossou-se dele como se toda a seiva de toda a
vida,afluindo de uma vez só ao seu coração demasiado estreito,poderosamente
recriasse as fibras enfraquecidas do seu ser.
E,ao mesmo tempo,a angústia de um perigo sobre-humano oprimiu-o-o
sentimento confuso de que a Força que se abatera sobre ele era ambígua e
turva,essência combinada de todo o Mal e de todo o Bem.
O furação estava dentro dele.
Ora,no mais fundo do ser que invadira,a Tempestade de vida,infinitamente doce e
brutal,murmurava no único ponto secreto da alma que não abalara inteiramente:
-Chamaste-me;aqui estou.Expulso pelo Espírito dos caminhos seguidos pela
caravana humana,atreveste-te a enfrentar a solidão virgem.Cansado das
abstracções,das atenuações,do verbalismo da vida social,quiseste medir-te com a
Realidade inteira e selvagem.
«Necessitavas de mim para crescer;e eu esperava-te,a ti,para que tu me
santificasses.
«Desejavas-me desde sempre sem o saberes;e eu atraí-te.
«Agora estou em cima de ti para a vida ou para a morte.É-te impossível
recuar;regressar às satisfações comuns e à adoração tranquila.Aquele que me
viu uma vez não pode esquecer-me nunca:condena-se comigo ou salva-me
consigo.
«Vens?
-O Divina e poderosa,que nome é o teu?Fala.
-Sou o fogo que queima e a água que se derrama,o amor que inicia e a verdade
que passa.Tudo o que se impõe e o que renova,tudo o que solta e tudo o que
une:Força,Experiência,Progresso-a Matéria,sou eu.
«Porque,na minha violência,acontece-me matar os meus amantes,porque aquele
que me toca nunca sabe que força vai desencadear,os sábios temem-me e
amaldiçoam-me.Desprezam-me em palavras,como a uma mendiga,uma feiticeira
ou uma prostituta.Mas as palavras deles estão em contradição com a vida,e os
fariseus que me condenam perecem no espírito a que se confinam.Morrem de
inanição,e os seus discípulos abandonam-nos,porque eu sou a essência de tudo
o que se toca,e os homens não podem passar sem mim.
«Tu que compreendeste que o Mundo-o Mundo amado por Deus-tem,mais ainda
do que os indivíduos,uma alma a resgatar,abre largamente o teu ser à minha
inspiração;recebe o Espírito da Terra por salvar.
«A palavra suprema do enigma,a fala deslumbrante inscrita na minha fronte e que
doravante te queimará os olhos,ainda que os feches,ei-la"Nada é preciso que não
sejas tu nos outros,e os outros em ti.Em cima,tudo é só um!Em cima tudo é só
um!"
«Vamos,não sentes o meu sopro que te desenraíza e arrebata?...De pé,
Homem de Deus,e apressa-te.Conforme nos entregamos,o turbilhão
arrastar-nos-á para as profundezas tenebrosas ou erguer-nos-á ao azul dos
céus.
A tua salvação e a minha dependem deste primeiro instante.
-Ó Matéria,bem vês,o meu coração treme.Uma vez que és tu,diz-me,que queres
que eu faça?
-Arma o teu braço,Israel,e luta comigo audazmente!
O sopro insinuando-se como um filtro,volvera-se provocador e hostil.
Trazia agora nas suas pregas um cheiro acre a batalha...
Odor feroz das florestas,febril atmosfera das cidades,perfume inebriante e sinistro
que sobe dos povos em guerra.
Tudo isto rolava nas suas dobras,fumo recolhido pelos quatro cantos da terra.
O Homem,ainda prostrado,teve um sobressalto,como se tivesse sentido
esporas.De um salto,pôs-se de novo de pé,frente à tempestade.
Acabava de estremecer a alma inteira da sua raça,recordação obscura do
primeiro despertar entre os animais mais fortes e mais bem armados,eco doloroso
dos longos esforços para a domesticação do trigo e o domínio do fogo,medo e
rancor perante a Força malfazeja,cupidez de saber e de reter...
Havia um instante,na doçura do primeiro contacto,desejara instintivamente
perder-se no hálito quente que o envolvia.
E eis que a onda de beatude quase dissolvente se transformara em àspera
vontade de mais ser.
O Homem farejara o inimigo e a presa hereditária.
Primeiro,lutou para não ser arrebatado:e depois,lutou pela alegria de lutar,para
se sentir forte.E,quanto mais lutava,mais sentia um crescendo de força sair de si
para equilibrar a tempestade;e desta,em contrapartida,emanava um eflúvio
novo,que,escaldante,lhe penetrava as veias.
Como o mar,em certas noites,se ilumina à volta do nadador,e tanto mais cintila
nas suas dobras quanto mais os menbros robustos o remexem com vigor,assim a
força obscura que lutava com o homem ficava radiante de mil fogos em torno do
esforço dele.
Através de um despertar mútuo das suas potências opostas,o Homem exaltava a
sua força para a dominar,e ela,pelo seu lado,revelava os seus tesouros para lhos
entregar.
-Mergulha na Matéria,Filho da Terra,banha-te nas suas camadas
ardentes,porque é ela a fonte e a juventude da tua vida.
«Ah,acreditavas poder dispensá-la,por se ter acendido em ti o
pensamento!Esperavas ficar tanto mais próximo do Espírito quanto mais
cuidadosamente rejeitasses aquilo que é de tocar,mais divino se vivesses na ideia
pura,mais angélico,pelo menos,se te esquivasses dos corpos.
«Pois bem,por pouco não morrias de fome!
«Necessitas de azeite para os teus menbros,de sangue para as tuas veias,de
água para a tua alma,de Real para a tua inteligência;necessitas deles pela
própria lei da tua natureza,ouves-me bem?...
«Nunca,nunca,se quiseres viver e crescer,poderás dizer à Matéria:"Já te vi o
bastante,dei a volta aos teus mistérios,colhi o bastante para alimentar para
sempre o meu pensamento."Ainda que,ouve bem,como o Sábio dos Sábiosn
trouxesses na tua memória a imagem de tudo o que povoa a Terra ou nada
debaixo das águas,essa Ciência seria como nada para a tua alma,porque todo o
conhecimento abstracto é ser que murchou;porque,para compreender o
Mundo,não basta saber:é preciso ver,tocar,viver na presença,beber a existência
na sua quentura no seio da própria Realidade.
«Por isso,nunca digas,como alguns fazem:A Matéria está gasta,a Matéria está
morta!"Até ao último momento dos séculos,a Matéria será jovem e
exuberante,cintilante e nova para quem o queira.
«E não repitas tão pouco:"A Matéria está condenada,a Matéria é má"Disse
alguem que chegou:"Bebereis o veneno e ele não vos fará mal."E ainda:"A vida
sairá da morte",e,por fim,proferindo a palavra final da minha libertação:"Este é o
meu corpo."
«Não,a pureza não está na separação,mas numa penetração mais profunda do
Universo.Está no amor da única Essência,incircunscrita,que penetra e trabalha
todas as coisas,por dentro-mais longe que a zona mortal onde se agitam as
pessoas e os números.Está num casto contacto com o que é "o mesmo em todos".
«Oh,como é belo o Espírito que se levanta,adornado com as riquezas da Terra!
«Banha-te na Matéria,filho do Homem.Mergulha nela,onde ela for mais violenta e
mais profunda!Luta na sua corrente e bebe na sua vaga!Foi ela que embalou
outrora a tua inconsciência;será ela a levar-te a Deus!
O Hmem no meio do furacão,viroua cabeça procurando ver o seu companheiro.
E,nesse momento,reparou que,por trás dele,numa estranha metamorfose,a Terra
crescia e fugia.
A Terra fugia,porque ali,por baixo dele,os pormenores vãos do terreno diminuíam
e se fundiam;ora,apesar disso,a terra crescia,porque, ao longe,o círculo do
horizonte subia,subia sem parar...
O Homem viu-se no centro de uma imensa taça,cujos lábios se fechavam sobre
ele.
Então,dando a febre da luta lugar no seu coração,a uma irresistível paixão de
suportar,descobriu,num relâmpago,presente em toda a parte,à sua volta,o Único
Necessário.
Compreendeu,para sempre,que o Homem,como o átomo,não vale senão pela
parte de si próprio que entra no Universo.
Viu,co uma evidência absoluta,a fragilidade vazia das mais belas teorias quando
comparadas coma plenitude definitiva do mais pequeno facto,tomado na sua
realidade concreta e total.
Comtemplou,numa clareza implacável,a irrisória pretenção dos seres humanos
que querem governar o Mundo,impor-lhe os seus dogmas,as suas medidas e as
suas convenções.
Saboreou,até à náusea,a banalidade das suas alegrias e das suas penas,o
mesquinhoegoismo das suas preocupações,a insipidez das suas paixões,o
afrouxamento da sua força de sentir.
Teve piedade dos que se amedrontam diante de um século,ou não sabem amar
para lá dos limites de um país.
Muitas coisas que outrora o haviam perturbado ou revoltado,os discursos e juízos
dos doutores,as suas afirmações e as suas prescrições,a proibição de se mover
que impunham ao Universo...
...Tudo isso lhe pareceu ridículo,inexistente,,por comparação com a Realidade
majestosa,transbordante de Energia que lhe revelava,universal na sua
presença,imutável na sua verdade,implacável no seu desenvolvimento,inalterável
na sua serenidade,maternal e segura na sua protecção.
Descobrira-finalmente-um ponto de apoio e um recurso fora da sociedade!
Um pesado manto caiu dos seus ombros e escorregou para trás dele:o peso do
que há de falso,de estreito,de tirânico,de artificial,de humano na humanidade.
Uma vaga de triunfo libertou-lhe a alma.
E ele sentiu que nada no Mundo,doravante,poderia desprender o seu coração da
Realidade superior que selhe revelava-nada;nem os Homens no que têm de
intrusivo e de individual(pois assim os desprezava);nem o Céu e a Terra na sua
altura,na sua extenção,na sua profundidade,na sua força,(pois era precisamente
a elas que para sempre se entregava).
Uma renovação profunda acabava de se operar nele,de tal modo que já não lhe
era,agora,possível ser Homem a não ser num outro plano.
Ainda que voltasse então a descer à Terra comum-e ainda que o fizesse para
junto do companheiro fiel que permanecia prostrado,ao longe, nar areia do
deserto-,seria doravante um estrangeiro.
Sim,tinha consciência disso:mesmo que para os seus irmãos em Deus,melhores
do que ele,passaria doravante a falar uma língua imcompreensível,ele a quem o
Senhor decidira levar a seguir o caminho do Fogo.Até para os que mais amava,a
sua afeição seria um peso,pois que eles o sentiriam invencivelmente em busca de
qualquer coisa para além deles.
Porque a Matéria,sacudindo o seu véu de agitação e multiplicidade,lhe descobrira
a sua gloriosa unidade,havia agora entre os outros e ele próprio um caos.Porque
a Matéria desprendera para sempre o coração dele de tudo o que é
local,individual,fragmentário,só ela,na sua totalidade,seria doravante para ele
pai,mãe,família,raça,a sua paixão única e ardente.
E ninguem no Mundo poderia fosse o que fosse contra isso.
Afastando resolutamente os olhos do que fugia,abandonou-se, com uma fé
transbordante,ao sopro que movia o Universo.
Ora,eis que no interior do turbilhão crescia uma luz que tinha a doçura e a
mobilidade de um olhar...Difundia-se um calor que já não era a dura irradiação de
um núcleo,mas a rica emanação de uma carne...A imensidade cega e selvagem
tornava-se expressiva,pessoal.As suas massas amorfas dispunham-se segundo
as linhas de um rosto inefável.
Desenhava-se um Ser em toda a parte,com a atracção de uma alma,com a
tangibilidade de um corpo,com a vastidão do céu,um Ser misturado com as coisas
embora distinto delas,superior à substância delas,na qual se envolvia,e no
entanto nelas tomava figura...
O Oriente nascia no coração do Mundo.
Deus irradiava no cimo da Matéria,cujas vagas lhe traziam o Espírito.
O Homem caiu de joelhos no carro de fogo que o arrebatava.
E falou assim:

   Hino à Matéria

«Bendita sejas,áspera Matéria,gleba estéril,duro rochedo,tu que só à violência
cedes e nos forças ao trabalho quando queremos comer.
Bendita sejas,perigosa Matéria,mar violento,paixão indomável,tu que nos devoras
se não te acorrentamos.
Bendita sejas,poderosa Matéria,Evolução irresistível,Realidade sempre
nascente,tu que a todo o momento,fazendo em pedaços os nossos padrões,nos
obrigas a perseguir a Verdade até cada vez mais longe.
Bendita sejas,universal Matéria,Duração sem limites,Éter sem
margens,triploabismo das estrelas,dos átomos e das gerações,tu que,excedendo
e dissolvendo as nossas medidas estreitas,nos revelas as dimensões de Deus.
Bendita sejas,impenetrável Matéria,tu que,em toda a parte entre as nossas almas
e o Mundo das Esssências,nos deixas vencidos pelos desejos de penetrar o véu
sem costura dos fenómenos.
Bendita sejas,mortal Matéria,tu que,ao te dissociares em nós um dia,nos
introduzirás,pela força,no próprio coração daquilo que é.
Sem ti,Matéria,sem os teus ataques,sem os teus assaltos,viveríamos
inertes,estagnados,pueris,ignorando-nos a nós próprios e a Deus.Tu que feres e
tratas a ferida,tu que resistes e que cedes,tu que alteras e que constróis,tu que
acorrentas e libertas,Seiva das nossas almas,mão de Deus,Carne de Cristo,eu te
bendigo,Matéria.
Eu te bendigo,Matéria,e te saúdo,não como te descrevem,reduzida ou
desfigurada,as autoridades da ciência e os pregadores da virtude,um feixe,dizem
eles,de forças brutais ou de apetites baixos,mas tal como me apareces hoje,na
tua totalidade e na tua verdade.
Saúdo-te,inesgotável capacidade de sr e de Transformação onde germina e
cresce a Substância eleita.
Saúdo-te,força universal de aproximação e união,através da qual se reunifica a
multidãodas mónadas e na qual todas elas convergem no caminho do Espírito
Saúdo-te,origem harmoniosa das almas,cristal límpido de onde sai a Nova
Jerusalém.
Saúdo-te,meio divino,carregado de Força Criadora,Oceano agitado pelo
Espírito,Argila amassada e animada pelo Verbo incarnado.
Crendo obedecer ao teu apelo irrresistível,os homens precipitam-se muitas vezes
por amor de ti no abismo exterior de satisfações egoístas.
Engana-os um reflexo,ou um eco.
Vejo-o agora
Para te atingir,Matéria,é necessário que,partindo de um contacto universal com
tudo o que aqui em baixo se move,sintamos pouco a pouco desvanecer-se entre
as nossas mãos as formas particulares de tudo o que detemos,até ficarmos a
braços apenas com a essência de todas as circunstâncias e de todas as uniões.
...é preciso,se te quisermos ver,que te sublimemos na dor depois de te termos
tomado voluptuosamente nos nossos braços.
Tu reinas,Matéria,nas alturas serenas onde os santos imaginam evitar-te,Carne
tão transparente e tão móvel que já não te distinguimos de um espírito.
Transporta-me para o alto,Matéria,pelo esforço,pela separação e pela
morte,transporta-me até onde seja enfim possível enlaçar castamente o Universo!»
-Meu Pai,meu Pai!Que vento louco o terá arrastado?
E um manto jazia no chão.
                                                       Pierre Teilhard de Chardin